Deslizar a tela de uma rede social, publicar um vídeo, conversar por aplicativos ou encontrar rapidamente uma informação na internet são tarefas comuns para boa parte dos adolescentes. A familiaridade com o celular, no entanto, não significa necessariamente alfabetização digital.
Por trás da recomendação de um vídeo existe um algoritmo. Uma notícia compartilhada em um grupo exige capacidade para verificar a fonte. Uma senha aparentemente inofensiva pode colocar dados pessoais em risco. Até decisões simples, como escolher o caminho mais rápido para chegar a um lugar, organizar uma tarefa ou identificar padrões, podem ajudar a compreender princípios de lógica, matemática e programação.
É nesse espaço entre usar a tecnologia e compreender como ela funciona que o pensamento computacional ganha importância na Educação Básica.
A Base Nacional Comum Curricular relaciona o pensamento computacional à capacidade de compreender, analisar, modelar e resolver problemas de maneira sistemática, inclusive por meio da construção de algoritmos. Portanto, mais do que aprender programação, trata-se de desenvolver uma forma estruturada de raciocinar diante de problemas.
Do cotidiano para o raciocínio lógico
Em Goiás, mais de 100 mil estudantes dos 8º e 9º anos do Ensino Fundamental da rede estadual passam a ter acesso ao SER Digital, conteúdo disponível na plataforma SER Goiás.
Estruturado em uma trilha de 34 atividades, com vídeos e questionamentos para aferição da aprendizagem, o material aborda inteligência artificial, fake news, algoritmos, redes sociais, segurança digital, programação, análise de dados e pensamento computacional.
A proposta parte de situações próximas à realidade dos adolescentes para chegar a conceitos que, muitas vezes, parecem abstratos.
Ao discutir por que uma rede social recomenda determinado conteúdo, por exemplo, é possível introduzir a lógica dos algoritmos. Ao avaliar uma informação recebida pelo celular, entram em cena critérios de checagem, interpretação e pensamento crítico. Já atividades de reconhecimento de padrões, decomposição de problemas e construção de sequências aproximam a computação de princípios também presentes na matemática.
Dessa forma, o estudante deixa de ocupar apenas a posição de consumidor de tecnologia. Ele começa a compreender as estruturas que organizam parte crescente de sua vida cotidiana.
Estar conectado não significa estar alfabetizado digitalmente
Essa distinção se tornou ainda mais relevante com a expansão da inteligência artificial e das plataformas digitais. Saber operar um aplicativo representa apenas uma dimensão da relação com a tecnologia.
O letramento digital envolve também interpretar informações, reconhecer riscos, proteger dados, avaliar conteúdos, compreender a influência dos algoritmos e agir de maneira crítica e responsável no ambiente digital.
A Política Nacional de Educação Digital (PNED), instituída pela Lei nº 14.533/2023, incorporou essa perspectiva à política educacional brasileira. A legislação estabelece a Educação Digital Escolar e inclui pensamento computacional, mundo digital e cultura digital entre seus componentes. Além disso, determina a inserção da educação digital nos currículos do Ensino Fundamental e Médio.
Educação digital também entrou na agenda do Fundeb
A incorporação dessas competências deixou de ser apenas uma escolha pedagógica das redes de ensino. Ela passou a ter reflexos também no financiamento da Educação Básica.
Para o ciclo de 2026, as redes precisam comprovar que seus referenciais curriculares contemplam as normas de Computação na Educação Básica — Complemento à BNCC. A exigência integra a Condicionalidade V da complementação-VAAR do Fundeb. Segundo a regulamentação vigente, a rede que não contemplar a Computação em seu referencial curricular será inabilitada para o recebimento dessa complementação em 2027.
Assim, pensamento computacional, mundo digital e cultura digital passam a ocupar um espaço cada vez mais estruturante nas políticas educacionais. O desafio, entretanto, não termina na inclusão dessas competências no currículo. É preciso transformá-las em experiências concretas de aprendizagem.
Mais de 1 milhão de exercícios no primeiro semestre
O SER Digital começou a ser experimentado com estudantes do 9º ano no primeiro semestre de 2026. Durante essa etapa, foram realizados 1 milhão de exercícios relacionados aos conteúdos da trilha. A experiência serviu de base para ampliar a iniciativa aos estudantes do 8º ano, alcançando agora mais de 100 mil alunos.
A ampliação do SER Digital acompanha uma mudança sobre o próprio lugar da tecnologia na escola. A questão já não se resume a disponibilizar computadores, internet ou plataformas. Em um cotidiano atravessado por algoritmos, inteligência artificial e grandes volumes de informação, a escola também precisa preparar o estudante para compreender as tecnologias que utiliza.
Afinal, uma geração que cresceu cercada por telas pode dominar aplicativos sem necessariamente compreender a lógica por trás deles. Transformar familiaridade digital em conhecimento, pensamento lógico, autonomia e capacidade de escolha é um dos novos desafios da Educação Básica.