Uma enchente pode impedir estudantes e professores de chegarem à escola. Uma tempestade pode danificar salas de aula. Ondas de calor extremo podem tornar determinados ambientes inadequados para crianças e adolescentes ou até mesmo suspender aulas. Situações como essas têm se tornado cada vez mais presentes no cotidiano e no noticiário.
Diante de uma emergência, fechar temporariamente uma escola pode ser necessário para proteger vidas. Mas uma segunda pergunta precisa fazer parte do planejamento das redes de ensino: Como garantir aprendizagem quando a escola física não puder funcionar?
A questão ganhou dimensão mundial com o relatório Learning Interrupted: Global Snapshot on Climate-related School Disruptions in 2025, publicado pelo UNICEF em setembro. Segundo o levantamento, pelo menos 171 milhões de estudantes, da Educação Infantil ao Ensino Médio, tiveram a vida escolar afetada por eventos climáticos em 2025 — aproximadamente um em cada dez alunos no mundo. Foram registradas interrupções em 106 países e territórios.
No Brasil, o UNICEF estima que pelo menos 745 mil crianças e adolescentes tiveram o acesso à educação interrompido em algum momento de 2025 por questões climáticas. O próprio organismo ressalta que o número pode ser maior, já que nem todos os eventos ocorridos no País foram captados pela metodologia do estudo.
A repercussão internacional do relatório também chama atenção para a diversidade dos fenômenos. Reportagem da Al Jazeera destaca que tempestades, enchentes e ondas de calor estiveram entre as principais causas das interrupções.
Mais do que produzir preocupação, porém, os dados oferecem uma oportunidade para escolas e redes se prepararem.
Continuidade da aprendizagem entra no planejamento
Planos de emergência tradicionalmente priorizam — e devem continuar priorizando — a proteção das pessoas e da infraestrutura. Rotas de evacuação, suspensão das atividades, comunicação com as famílias e articulação com órgãos públicos são indispensáveis.
O cenário climático acrescenta uma nova dimensão: a continuidade educacional.
Se uma escola precisar permanecer fechada por alguns dias ou semanas, professores conseguirão manter contato com os estudantes? Quais conteúdos deverão ser priorizados? Como alcançar quem não possui internet? E, quando as aulas presenciais retornarem, como identificar os estudantes que precisarão de maior apoio?
O UNICEF recomenda justamente que governos fortaleçam a resiliência dos sistemas educacionais, invistam em infraestrutura escolar mais preparada e desenvolvam mecanismos capazes de garantir a continuidade da aprendizagem durante emergências.
Para diretores e redes de ensino, algumas medidas podem começar antes mesmo de uma emergência acontecer.
Cinco caminhos para escolas e redes se prepararem
1. Conhecer os riscos do território
Enchentes, temperaturas extremas, dificuldades de transporte, interrupções de energia e problemas de conectividade afetam territórios de maneiras diferentes. Mapear esses riscos e identificar quais estudantes são mais vulneráveis permite antecipar respostas.
2. Construir um plano de continuidade da aprendizagem
Além dos protocolos de segurança, a escola pode estabelecer previamente como manterá as atividades pedagógicas durante uma interrupção. Responsabilidades, canais de comunicação, conteúdos prioritários e alternativas para estudantes sem conectividade podem ser definidos antes da emergência.
3. Criar diferentes caminhos para chegar ao estudante
Depender de um único meio aumenta a vulnerabilidade. Plataformas digitais podem conviver com televisão, rádio, celular, aplicativos de mensagens e materiais impressos.
Experiências internacionais já mostraram a importância dessa combinação. Em Serra Leoa, por exemplo, programas educacionais, em parceria com o Banco Mundial, transmitidos pelo rádio foram utilizados durante a epidemia de Ebola e posteriormente retomados, ao lado de outras tecnologias, durante a pandemia de Covid-19.
A lógica é simples: quando um canal deixa de funcionar, outro pode ajudar a preservar o vínculo entre professor, escola e estudante.
4. Identificar quem deixou de ser alcançado
Disponibilizar conteúdo não significa necessariamente garantir aprendizagem. A escola precisa saber quem recebeu as atividades, quem conseguiu participar e, sobretudo, quem desapareceu do processo.
Frequência, participação, busca ativa e dados educacionais podem ajudar professores e gestores a concentrar esforços justamente nos estudantes que mais precisam.
5. Preparar o retorno e a recomposição
A reabertura da escola não encerra a emergência educacional. Enquanto alguns estudantes podem ter acompanhado as atividades, outros podem ter permanecido dias ou semanas sem acesso ao ensino.
O retorno pode exigir acolhimento, avaliação diagnóstica, priorização curricular, busca ativa e estratégias de recomposição das aprendizagens.
Forma-se, assim, um ciclo de preparação:
antecipar → preparar → manter → acompanhar → recompor.
Preparação em vez de medo
Nada disso diminui a importância da escola física. A escola continua sendo espaço de aprendizagem, convivência, alimentação, proteção e construção de vínculos.
Também não significa imaginar que televisão, internet ou qualquer outra tecnologia possa substituir professores. A questão é outra: criar alternativas para que professores e estudantes permaneçam conectados quando circunstâncias excepcionais impedirem temporariamente o encontro presencial.
O alerta apresentado pelo UNICEF pode, portanto, ser encarado também como uma oportunidade de planejamento.
Escolas não conseguem impedir uma tempestade, uma enchente ou uma onda de calor. Mas redes mais preparadas podem reduzir o impacto desses acontecimentos sobre a trajetória educacional de crianças e adolescentes.
Para cada diretor e gestor educacional, talvez fique uma pergunta simples: se amanhã nossa escola precisar suspender as atividades presenciais, estamos preparados para continuar ensinando? Pensar nessa resposta antes da próxima emergência pode ser o primeiro passo para construir uma educação mais resiliente.